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A saúde vista pelos utentes em Portugal: conquistas e desafios - Resultados do maior inquérito internacional aos utilizadores de serviços de saúde

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) apresenta hoje os resultados do estudo Patient Reported Indicators Surveys (PaRIS), o maior inquérito internacional aplicado a utilizadores de serviços de saúde. O evento de lançamento do relatório decorre em Lisboa com o apoio da Direção-Geral da Saúde (DGS).
O estudo, que abrangeu mais de 100.000 utentes em 1.800 unidades de cuidados de saúde primários em 19 países, revela as experiências de pessoas com mais de 45 anos nos centros de saúde, incluindo as que vivem com doenças crónicas como hipertensão, artrite, diabetes, doença cardíaca e cancro.
Em Portugal, participaram no estudo mais de 12.000 utentes de 91 centros de saúde (USF e UCSP). O estudo esteve em preparação desde 2021 e o trabalho de campo decorreu no segundo semestre de 2023. A implementação resultou de uma parceria entre a DGS, a ACSS, a SPMS e a Escola Nacional de Saúde Pública, apoiado por um grupo consultivo com representantes dos utentes e profissionais.
Embora a comparação com outros países evidencie desafios significativos, sobretudo na coordenação de cuidados, os valores absolutos de vários indicadores são positivos.
Por exemplo, 57% dos inquiridos reportam boa saúde física (vs. 70% de média na OCDE) e 67% avaliam positivamente a sua saúde mental (embora este seja o valor mais baixo entre os países participantes). O bem-estar foi reportado como positivo por 61% dos inquiridos (vs. 71% na OCDE) e 42% consideram a sua saúde geral boa (vs. 66% na OCDE).
Dados do relatório que destacam aspetos positivos do sistema de saúde português:
• 97% dos utentes com duas ou mais doenças crónicas beneficiam de uma abordagem multidisciplinar, ou seja, não exclusivamente médica, acima da média da OCDE (83%).
• 86% das unidades oferecem consultas de seguimento com mais de 15 minutos, muito acima da média da OCDE (47%). O relatório internacional revela que ter melhor saúde requer cuidados de saúde prestados com mais tempo dedicado aos utentes; aqueles que reportam que o seu profissional de saúde despendeu tempo suficiente com eles têm uma probabilidade 90% maior de confiar no sistema de saúde.
• 71% dos utentes em Portugal com três ou mais condições crónicas tiveram a sua medicação revista nos últimos 12 meses (próximo à média OCDE de 75%).
• 80% dos utentes são geridos em unidades com capacidade de troca eletrónica de registos médicos, muito acima da média OCDE de 57%, demonstrando o potencial da infraestrutura digital em saúde como ferramenta de promoção dos cuidados centrados nas pessoas.
Apesar destes avanços, Portugal apresenta desafios em alguns indicadores quando comparado com outros países:
• A coordenação dos cuidados (por exemplo. ter um plano de cuidados único com articulação entre hospital e centro de saúde) é um dos desafios identificados, com um desempenho inferior à média (49% Portugal vs 59% na OCDE).
• Mais de metade (54%) das pessoas em Portugal confiam no sistema de saúde (vs 62% na OCDE).
• A confiança no sistema de saúde é influenciada por fatores socioeconómicos: 64% dos utentes com rendimentos mais elevados confiam no sistema (vs. 70% na OCDE), enquanto apenas 48% das pessoas com rendimentos mais baixos expressam essa confiança (vs. 59% na OCDE). Esta diferença entre grupos de rendimento é uma das maiores entre os países.
• Um em cada 10 doentes crónicos em Portugal (12%) sente-se confiante para utilizar informação sobre saúde na internet (vs 19% na OCDE).
Outros destaques do relatório internacional PaRIS:
• Oito em cada dez utilizadores dos cuidados primários que participaram no PaRIS têm pelo menos uma doença crónica, mais de metade vive com duas doenças crónicas e um quarto dos inquiridos tem três ou mais. Os resultados evidenciam a urgência de adaptar os sistemas de saúde às necessidades da população com várias doenças.
• O relatório evidencia que as mulheres tendem a viver mais tempo do que os homens, mas relatam consistentemente uma pior saúde. De todas as pessoas com doenças crónicas, 74% dos homens têm uma boa saúde física, em comparação com 65% das mulheres, e 86% dos homens têm uma boa saúde mental, em comparação com 81% das mulheres.
• O acesso fácil a consultas emerge como uma condição muito relevante na confiança que os utentes têm no sistema de saúde. As pessoas que tiveram experiências negativas – como não conseguirem uma consulta ou receberem um diagnóstico tardio – têm uma probabilidade 1.6 vezes menor de confiar no sistema de saúde.
• O potencial das tecnologias digitais não está a ser totalmente usado nos cuidados de saúde. Apenas 7% dos doentes crónicos reportaram ter usado teleconsulta nos cuidados primários e só 17% reportaram aceder aos seus registos médicos online.
Ao medir os resultados em saúde (como saúde física, saúde mental e função social) e as experiências dos utentes (como a qualidade dos cuidados, a confiança nos profissionais e coordenação dos cuidados), o estudo preenche uma lacuna importante nos dados ao dar voz às pessoas diretamente afetadas pelos serviços de saúde.
O relatório serve como apelo aos países para que os seus sistemas de saúde coloquem as necessidades, preferências e expectativas dos doentes no centro da tomada de decisões. As conclusões permitirão informar novas políticas de modo a reduzir desigualdades, melhorar a coordenação de cuidados e fortalecer a confiança no sistema de saúde.
Conheça o estudo em pormenor aqui.
