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Dia Mundial da Poliomielite 2024

Celebra-se hoje, 24 de outubro, o Dia Mundial da poliomielite, um dos maiores triunfos da saúde pública em Portugal. Esta é uma história de sucesso que reflete décadas de trabalho árduo, políticas eficazes e um compromisso profundo com o bem-estar das nossas crianças e das gerações futuras.
A poliomielite, ou paralisia infantil, como era amplamente conhecida, foi, durante grande parte do século XX, uma doença temida. Trata-se de uma doença viral que, embora muitas vezes assintomática, pode causar paralisia permanente e, em alguns casos, levar à morte. Nas décadas de 1940 e 1950, Portugal, como muitos outros países, viveu períodos de surtos. Eram tempos de grande angústia, em que famílias viam as suas crianças adoecerem de forma imprevisível e devastadora.
Porém, o cenário começou a mudar quando, na década de 1950, foi desenvolvida a primeira vacina contra a poliomielite. A vacina inativada de poliovírus, criada em 1955, e, logo depois, a vacina oral, desenvolvida em 1961, representaram uma verdadeira revolução na luta contra esta doença.
Em Portugal, a resposta foi rápida. Em 1965, a vacina contra a poliomielite foi integrada no Programa Nacional de Vacinação, garantindo que todas as crianças tivessem acesso gratuito e universal a esta proteção.
Mas a vacina, por si só, não seria suficiente. Foram necessárias décadas de trabalho árduo e campanhas de vacinação em massa, com uma organização de saúde pública notável, que se estendeu a todas as regiões do país, incluindo as mais remotas. O governo português, em colaboração com organizações internacionais como a Organização Mundial de Saúde e a UNICEF, mobilizou esforços sem precedentes para vacinar o maior número possível de crianças. Entre outubro de 1965 e dezembro de 1966, administraram-se mais de 3 Milhões de vacinas orais contra a poliomielite às crianças entre os 3 meses e os 9 anos de idade, o que aliada a uma campanha de sensibilização eficaz, contribuíram para o sucesso desta campanha.
As campanhas de vacinação tornaram-se uma prioridade nacional. As equipas de saúde iam a todas as comunidades, levando a vacina às portas das famílias e às escolas, sensibilizando a população sobre a importância da vacinação. Este esforço foi fundamental para o nosso sucesso, assegurando que a poliomielite fosse progressivamente eliminada.
Aqui, importa prestar uma homenagem especial aos nossos profissionais de saúde, que desempenharam um papel essencial nesta luta, todos eles, dia após dia, e com grande dedicação, levaram a proteção conferida pela vacinação a cada canto do país.
A década de 1980 foi mais um ponto de viragem. Através de um programa de vigilância clínica e laboratorial rigoroso, o país conseguiu monitorizar com precisão qualquer caso suspeito e responder rapidamente, evitando a propagação do vírus. Graças a esta vigilância, foi possível identificar e controlar qualquer foco de infeção.
E assim, chegámos ao marco histórico: 1986, o ano em que foi identificado o último caso de poliomielite de origem endémica em Portugal. Uma vitória que foi celebrada por toda a nação e reconhecida internacionalmente. Este feito culminou, em 2002, com a declaração da Região Europeia da OMS, que inclui Portugal, como livre da poliomielite. A partir daí, a poliomielite deixou de ser uma ameaça à saúde das nossas crianças.
Mas, este sucesso não significou o fim da nossa vigilância. Sabemos que o mundo está interligado, e enquanto houver poliomielite nalguma parte do planeta, o risco de reintrodução permanece. Foi com esse entendimento que Portugal implementou o Plano de Ação Pós-Eliminação da Poliomielite. Este plano visa garantir que mantemos elevadas taxas de vacinação e uma vigilância clínica e laboratorial contínua para evitar qualquer possibilidade de reingresso da doença no nosso país.
Hoje, podemos orgulhar-nos do nosso contributo para o Programa Global de Erradicação da Poliomielite, liderado pela Organização Mundial da Saúde. Portugal é um exemplo de como a vacinação em massa, aliada a políticas de saúde pública coerentes e eficazes, pode erradicar doenças que, durante tanto tempo, causaram tanto sofrimento.
Esta história não é apenas sobre a poliomielite; é sobre o poder da prevenção e sobre como, juntos, podemos proteger as nossas comunidades contra ameaças invisíveis. É também um legado que nos lembra que o combate às doenças transmissíveis é contínuo. O nosso sucesso é o resultado da ciência, do compromisso político, do empenho dos profissionais de saúde e da confiança que a população portuguesa deposita nas vacinas e nos programas de saúde.
A erradicação da poliomielite é, sem dúvida, um dos maiores feitos da nossa história recente. É uma conquista que nos inspira a continuar a lutar pela saúde pública, a proteger as nossas crianças e a garantir um futuro mais seguro para todos.
