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Estudo PaRIS: coordenação de cuidados é um dos principais desafios dos cuidados de saúde primários em Portugal

Estudo PaRIS: coordenação de cuidados é um dos principais desafios dos cuidados de saúde primários e

O Relatório nacional do estudo PaRIS (Patient-Reported Indicator Surveys), coordenado pela  Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e promovido em Portugal pela Direção-Geral da Saúde (DGS), revela que a coordenação dos cuidados é um dos maiores desafios dos cuidados de saúde primários do país. Embora os utentes apresentem uma relação positiva com os profissionais de saúde, confiando na sua capacidade para gerir a saúde, apenas cerca de metade dos utentes avalia positivamente a coordenação dos cuidados que recebem.

O estudo envolveu 11.744 utentes com 45 ou mais anos, e 80 unidades de cuidados de saúde primários, representando a maior recolha nacional já realizada neste campo. A análise incluiu os aspetos clínicos dos cuidados, mas também a qualidade percebida, a confiança no sistema de saúde e a coordenação entre os diferentes níveis de assistência, desde os cuidados primários até aos hospitais, cuidados continuados e serviços de saúde mental. Neste ponto, o Relatório faz referência à necessidade de integração nos cuidados prestados, com muitos utentes a referirem não ter um profissional claramente identificado para coordenar o seu percurso assistencial e com planos de cuidados individuais a serem ainda pouco frequentes.

Apesar das dificuldades na coordenação, o estudo apontou pontos positivos na relação interpessoal entre utentes e profissionais de saúde. Muitos utentes referem sentir-se ouvidos e envolvidos nas decisões sobre o seu tratamento, o que destaca a importância da relação clínica nos cuidados de saúde. Em Portugal, também a confiança na gestão da saúde própria está ligeiramente acima da média da OCDE, refletindo uma base sólida na qualidade da relação entre utentes e profissionais. No entanto, a qualidade dos cuidados em geral é avaliada abaixo da média internacional, com resultados insatisfatórios em áreas como saúde física, saúde mental, bem-estar e funcionamento social.

No Relatório pode ler-se que a multimorbilidade é muito frequente, com a maioria dos utentes com 45 ou mais anos a viver com, pelo menos, uma doença crónica. Sobre as dificuldades na qualidade dos cuidados e na coordenação do tratamento, mulheres, idosos, pessoas com menor escolaridade e aquelas em situações de privação económica são os grupos que mais as reportam.

A transformação digital também foi identificada como uma área fundamental para melhoria. Embora o sistema de saúde disponha de registos eletrónicos de saúde, o estudo revela limitações significativas na partilha de informação entre profissionais e no acesso remoto aos cuidados. A utilização da videoconsulta, por exemplo, continua a ser residual, sugerindo o Relatório que a digitalização deve ser vista não como um complemento, mas como uma condição essencial para a melhoria da eficiência do sistema.

Em resposta aos desafios identificados, o Relatório apresenta três grandes eixos de transformação para os cuidados de saúde primários em Portugal: a coordenação dos cuidados, com o objetivo de garantir percursos assistenciais mais integrados e personalizados, incluindo a criação de planos de cuidados individuais; a personalização dos cuidados, com foco nas necessidades específicas de utentes com doenças; e a digitalização e confiança, que inclui a modernização dos canais de contacto e a implementação de soluções digitais

Este estudo constitui-se, assim, numa base sólida para futuras reformas no sistema de saúde, permitindo uma avaliação mais precisa da qualidade dos cuidados e ajudando a guiar políticas públicas que respondam de forma mais eficaz às reais necessidades da população.

Conheça o Relatório aqui: