Impacto económico das Doenças Cérebro-cardiovasculares

Impacto económico das Doenças Cérebro e Cardiovasculares
As doenças cérebro e cardiovasculares representam um dos maiores encargos económicos para o sistema de saúde português e para a sociedade. Para além de constituírem a principal causa de morte e incapacidade, condicionam internamentos recorrentes, a utilização de terapêuticas crónicas e a utilização crescente de tecnologias de elevado custo, traduzindo-se numa pressão crescente sobre o financiamento e a sustentabilidade do sistema.
As estimativas mais recentes apontam para um custo direto anual entre 1,5 e 1,7 mil milhões de euros, valor que corresponde a cerca de 11% da despesa pública total em saúde. Estes números resultam da integração de várias fontes institucionais e devem ser interpretados como aproximações consolidadas — não incluem, por exemplo, custos com cirurgia vascular periférica nem despesas indiretas relacionadas com incapacidade, reabilitação ou perda de produtividade, pelo que o impacto económico real é superior.
A análise da última década evidencia uma transformação significativa na estrutura da despesa. Apesar de se observar uma redução do número de internamentos por doenças do aparelho circulatório (-20,3% entre 2017 e 2024), o custo total associado diminuiu apenas ligeiramente, evidenciando maior complexidade clínica e intensidade de cuidados. No total, foram registados mais de 810 mil episódios de internamento neste período, correspondendo a cerca de 2,85 mil milhões de euros de despesa hospitalar acumulada.
Em paralelo, os custos com medicamentos cresceram mais de 40% em dez anos, refletindo a expansão da terapêutica farmacológica e o aumento da prevalência de doença crónica cardiovascular. Este crescimento reforça a necessidade de estratégias de prescrição racional, políticas de comparticipação equilibradas e investimento na prevenção, de forma a garantir simultaneamente acesso equitativo e sustentabilidade financeira.
Outro dos fatores determinantes do aumento da despesa é o rápido desenvolvimento tecnológico. Os procedimentos e dispositivos percutâneos, como stents, pacemakers, desfibrilhadores implantáveis ou válvulas percutâneas, constituem atualmente uma das áreas de maior expansão financeira, ultrapassando 160 milhões de euros anuais em 2023 e representando uma parcela significativa da despesa hospitalar cardiovascular.
Em contraste, a cirurgia cardíaca manteve custos globais relativamente estáveis, cerca de 110 milhões de euros por ano entre 2017 e 2023, mesmo com o aumento da complexidade dos doentes. Esta estabilidade reflete ganhos de eficiência, mas também a transferência progressiva de atividade para terapêuticas minimamente invasivas.
No seu conjunto, estes dados demonstram uma redistribuição estrutural da despesa cardiovascular: redução relativa do peso dos internamentos e da cirurgia tradicional e crescimento sustentado do investimento em medicamentos, tecnologias e terapêuticas crónicas. A monitorização sistemática destes indicadores é essencial para orientar decisões de política de saúde, priorizar investimento e assegurar que o aumento de recursos se traduz em ganhos efetivos de saúde, qualidade de vida e eficiência do sistema.
