Programa Nacional para as Doenças Cérebro-Cardiovasculares - DCCV em números

As doenças cérebro e cardiovasculares em números
Entre 2012 e 2023, as doenças cerebrovasculares (DCV) apresentaram uma evolução global favorável, contribuindo de forma significativa para a redução da mortalidade por doenças do aparelho circulatório em Portugal.
Verificou-se uma diminuição consistente da taxa de mortalidade padronizada por DCV, com uma redução global de 59,6 óbitos por 100.000 habitantes, observada de forma semelhante em ambos os sexos. Este resultado ocorreu apesar do envelhecimento populacional e do aumento da carga de comorbilidade, refletindo melhorias sustentadas na prevenção, diagnóstico precoce e tratamento cardiovascular.
Doença isquémica cardíaca e enfarte agudo do miocárdio
A mortalidade por doença isquémica cardíaca apresentou uma redução progressiva ao longo da década, traduzindo-se numa diminuição de cerca de 15 mortes por 100.000 habitantes na taxa padronizada. Contudo, nos indivíduos com menos de 75 anos, a evolução manteve-se relativamente estável, sugerindo a necessidade de reforçar estratégias de prevenção e controlo dos fatores de risco nas idades mais jovens.
Relativamente ao enfarte agudo do miocárdio (EAM), os ganhos mais expressivos observaram-se nos grupos etários mais idosos, com uma redução superior a 50% da mortalidade na população com mais de 75 anos ao longo dos últimos dez anos. Estes resultados refletem melhorias na resposta pré-hospitalar, consolidação da Via Verde Coronária e maior acesso a terapêuticas de reperfusão.
Insuficiência cardíaca
A mortalidade por insuficiência cardíaca apresentou uma tendência global de diminuição, atingindo em 2023 o valor mais baixo da última década, com uma taxa de mortalidade padronizada de 33,3 óbitos por 100.000 habitantes. Esta evolução ocorreu num contexto de inovação terapêutica significativa e reorganização dos modelos assistenciais, incluindo maior utilização de cuidados intermédios e estratégias ambulatórias.
Atividade hospitalar e resultados assistenciais
A análise da morbilidade hospitalar revela uma redução global dos internamentos por doenças cardiovasculares entre 2017 e 2023, com uma diminuição de cerca de 18,9% dos episódios de internamento e de 17,6% dos óbitos hospitalares associados às doenças do aparelho circulatório.
Destacam-se:
- redução de 20,7% dos internamentos por enfarte agudo do miocárdio;
- diminuição significativa da letalidade hospitalar;
- redução superior a 30% dos internamentos por insuficiência cardíaca, apesar do envelhecimento populacional.
Estes resultados sugerem impacto positivo combinado da melhoria terapêutica, da organização das redes assistenciais e do reforço do acompanhamento clínico fora do internamento hospitalar.
Uma trajetória positiva, mas com novos desafios
Globalmente, Portugal registou progressos relevantes nos resultados cardiovasculares na última década, aproximando-se dos melhores desempenhos europeus. No entanto, persistem desafios importantes, nomeadamente:
- estabilização da mortalidade cardiovascular em idades mais jovens;
- desigualdades regionais no acesso a cuidados diferenciados;
- crescente peso da insuficiência cardíaca e da multimorbilidade associada ao envelhecimento.
A consolidação dos ganhos obtidos dependerá do reforço das políticas de prevenção, da integração dos cuidados e da monitorização contínua baseada em dados.
Para além do AVC e do enfarte: outras dimensões das doenças cérebro e cardiovasculares
As doenças cérebro e cardiovasculares abrangem um amplo espectro de condições clínicas que refletem diferentes manifestações da doença vascular ao longo da vida.
O relatório dos 10 Anos das Doenças Cérebro e Cardiovasculares em Portugal evidencia que a carga da doença vascular vai muito além dos eventos agudos mais conhecidos. A análise integrada inclui outros grandes grupos nosológicos que refletem a crescente complexidade clínica associada ao envelhecimento populacional e à evolução tecnológica dos cuidados de saúde.
Doenças das válvulas cardíacas
As doenças das válvulas cardíacas assumem importância crescente numa população progressivamente envelhecida, acompanhando o aumento da esperança de vida e da degeneração valvular associada à idade. Este grupo de patologias representa uma das áreas de maior expansão da cardiologia estrutural, com aumento sustentado da necessidade de intervenção e maior complexidade clínica dos doentes tratados.
Na última década observou-se uma transição progressiva da cirurgia convencional para abordagens percutâneas minimamente invasivas, suportadas por equipas multidisciplinares (Heart Teams) e por avanços tecnológicos significativos. A estenose aórtica degenerativa emerge como a principal expressão desta evolução, assumindo características epidemiológicas próximas de uma verdadeira epidemia associada ao envelhecimento.
Esta transformação reforça a necessidade de redes organizadas de referenciação e monitorização de resultados, garantindo equidade no acesso a terapêuticas estruturais avançadas.
Doenças do ritmo cardíaco
A fibrilhação e o flutter auricular constituem uma causa de morbilidade cardiovascular, internamento hospitalar e risco tromboembólico, particularmente em populações envelhecidas e com multimorbilidade associada.
O aumento da atividade em eletrofisiologia, incluindo procedimentos de ablação e implantação de dispositivos cardíacos, reflete a evolução tecnológica e a consolidação destas intervenções como terapêuticas estruturantes na cardiologia contemporânea.
A crescente complexidade destes doentes evidencia a importância de redes assistenciais diferenciadas e de seguimento longitudinal integrado entre hospital e cuidados de saúde primários.
Doença arterial periférica
A doença arterial periférica representa uma manifestação sistémica da aterosclerose frequentemente subdiagnosticada, associada a elevada carga de fatores de risco cardiovascular e impacto significativo na capacidade funcional e qualidade de vida.
A evolução das técnicas endovasculares permitiu ampliar as opções terapêuticas, reduzindo complicações major e melhorando prognóstico em doentes previamente considerados de elevado risco cirúrgico.
O reconhecimento precoce desta patologia assume particular relevância enquanto marcador de risco vascular global, reforçando a necessidade de integração entre prevenção, diagnóstico e tratamento multidisciplinar.
Síndromes aórticos agudos
Os síndromes aórticos agudos constituem condições clínicas raras, mas de extrema gravidade, caracterizadas por elevada mortalidade e forte dependência do tempo até ao tratamento.
Os avanços nas técnicas cirúrgicas e endovasculares permitiram melhorar os resultados clínicos, mas exigem elevada diferenciação técnica e coordenação inter-hospitalar eficaz.
A organização de redes de referenciação especializadas e equipas multidisciplinares dedicadas revela-se determinante para garantir resposta rápida e equitativa em todo o território nacional.
Endocardite infeciosa
A endocardite infeciosa mantém-se uma patologia complexa e de elevada gravidade clínica, frequentemente associada a múltiplas comorbilidades, dispositivos intracardíacos e infeções relacionadas com cuidados de saúde.
O seu tratamento exige abordagem integrada médico-cirúrgica e decisão multidisciplinar especializada, refletindo a crescente complexidade do perfil dos doentes.
A monitorização nacional desta patologia permite compreender padrões emergentes e apoiar a organização de centros com experiência diferenciada no seu tratamento.
Doença tromboembólica pulmonar
A tromboembolia pulmonar representa uma causa relevante de internamento cardiovascular e mortalidade potencialmente evitável, frequentemente associada a fatores de risco transitórios ou doenças crónicas.
A melhoria dos métodos diagnósticos e das estratégias terapêuticas permitiu aumentar a deteção precoce e melhorar os resultados clínicos, particularmente nos casos de risco intermédio e elevado.
A definição de percursos assistenciais estruturados e articulação entre especialidades constitui elemento central para otimizar o prognóstico destes doentes.
Choque cardiogénico
O choque cardiogénico representa uma das manifestações mais graves da doença cardiovascular aguda, mantendo elevada mortalidade apesar dos avanços terapêuticos.
A introdução de estratégias de suporte circulatório mecânico e a abordagem baseada em equipas multidisciplinares especializadas (Shock Teams) refletem uma mudança paradigmática na organização dos cuidados.
Os dados nacionais reforçam a necessidade de redes assistenciais altamente diferenciadas, com referenciação precoce e coordenação entre centros, visando melhorar a sobrevivência nesta condição crítica.
Para informações mais detalhadas, por favor aceda ao Relatório do PNDCCV 2025.
